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O que o Minha Casa Minha Vida representa para o setor de arames e vergalhões

O avanço do programa habitacional transforma demanda em pressão sobre preços, importações e capacidade produtiva da cadeia siderúrgica

O Minha Casa Minha Vida já contratou mais de 1,9 milhão de unidades desde 2023, com investimento público superior a R$ 300 bilhões, e a meta atual é chegar a 3 milhões de moradias no final de 2026. Para a cadeia siderúrgica, esse volume não é uma variável de mercado qualquer — é uma demanda estrutural, plurianual e com canteiro aberto. E o reflexo disso chega direto na demanda por aço longo, vergalhões e arames.

A construção civil é, hoje, o principal suporte do consumo de aço no país. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), 60% do consumo atual de aço vem do setor imobiliário e 40% da infraestrutura. O MCMV puxa boa parte dessa conta: em 2024, o número de residências lançadas no país subiu 18,6%, e o volume de lançamentos dentro do programa cresceu 44% em um ano. Nesse ambiente, a conclusão de quem está dentro do setor é direta. 

Parte desse consumo passa pelo arame. O sistema construtivo de parede de concreto armado, amplamente empregado na proposta, depende da tela de aço para reduzir o tempo de obra, agilizando a entrega e garantindo mais rápido repasse financeiro às construtoras. A tela é produzida a partir do fio máquina — e é exatamente esse insumo que está no centro de uma disputa entre a indústria nacional e o produto importado. O setor siderúrgico pediu ao governo aumento do imposto de importação para o fio máquina, mas o tema segue em estudo, porque onerar a importação poderia elevar o custo final da obra e reduzir a atratividade do próprio programa. 

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No vergalhão, o cenário é parecido. As importações totalizaram 156 mil toneladas nos primeiros nove meses de 2024, ante um consumo interno de 2,75 milhões de toneladas. A fatia ainda é pequena, mas vem crescendo desde a pandemia — e o setor está de olho em um movimento que pode mudar esse equilíbrio. Com os desafios de exportação para os EUA, a indústria chinesa pode buscar o mercado brasileiro, caso consiga superar as barreiras técnicas de certificação, alerta Dionyzio Klavdianos, presidente da Comissão de Materiais da Cbic. 

Do lado das siderúrgicas, a demanda contínua do MCMV já orienta decisões de investimento. A Gerdau, por exemplo, anunciou em 2025 um aporte de R$ 1,5 bilhão para ampliar a produção em sua unidade de Ouro Branco (MG), como parte de um plano de R$ 6 bilhões no estado. A empresa, que concentra sua produção em aços longos, tem no programa habitacional um cliente recorrente. Mais do que fornecimento direto, a Gerdau detém cerca de 44% do capital da Brasil ao Cubo, construtora de módulos que aposta na construção volumétrica para atender o sistema do governo com estruturas de aço pré-fabricadas. 

O ponto de tensão para toda a cadeia está no preço. Ao longo de 2025, o preço médio do aço no Brasil acumulou deflação de 9,57% até janeiro de 2026, mas os dados mais recentes mostram retomada de alta: entre novembro e janeiro, a soma foi de 3,56%. Para as construtoras que fecham contratos longos com preços tabelados pelo programa, essa volatilidade é um problema real. O custo nacional da construção civil atingiu R$ 1.820,70 por metro quadrado em agosto de 2025, o maior valor desde 2021, com variação acumulada de 7,2% no ano, acima do IPCA. 

Distribuidores e construtoras de menor porte carregam a parte mais pesada desse risco. A maioria das empresas que atuam no método governamental é de porte médio, sem volume mínimo para importar diretamente ou para negociar contratos de fornecimento com travas de preço. Quem consegue estruturar compras antecipadas sai na frente — mas isso exige capital de giro que nem todas as construtoras têm.

Com metas que se estendem até o fim de 2026 e um novo ciclo de 130 mil unidades já anunciado, com R$ 14,8 bilhões disponíveis no Fundo de Arrendamento Residencial e prazo aberto até agosto de 2026, a demanda por vergalhões e arames não deve arrefecer no curto prazo. O desafio da cadeia é converter essa previsibilidade de volume em previsibilidade de preço e logística — e isso ainda está sendo construído junto com as paredes.

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