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Aço reciclado deixa de ser diferencial e vira exigência de mercado

Construtoras, montadoras e compradores globais ampliam demanda por produtos com menor pegada de carbono

O aço é o material mais reciclado do mundo. Pode ser fundido, relaminado e reprocessado indefinidamente sem perda de propriedades mecânicas. Apesar disso, essa característica raramente aparece como argumento comercial na cadeia de distribuição brasileira. O que está mudando, e rápido, é que o comprador industrial passou a perguntar. Construtoras com metas ESG, montadoras que respondem a auditorias de emissão de Escopo 3 e compradores europeus submetidos ao CBAM querem saber qual a pegada de carbono do aço que compraram.

Em 2025, o Brasil reciclou 8,7 milhões de toneladas de sucata de aço, segundo o Instituto Aço Brasil. Esse volume equivale a cerca de 30% de toda a produção nacional de aço bruto no ano, percentual alinhado à média mundial. A rota do forno elétrico a arco, que usa sucata como insumo principal, consome até 80% menos energia do que a produção integrada a partir de minério de ferro e coque, segundo a própria Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM). Do ponto de vista de emissões, a diferença é ainda mais expressiva: estudo do Boston Consulting Group aponta que a produção de aço via rota elétrica com sucata emite em torno de 0,4 tonelada de CO2 por tonelada de aço, contra cerca de 2,1 toneladas pela rota integrada convencional.

O mercado de sucata no Brasil funciona por meio de uma cadeia com múltiplos elos. Na base estão os catadores e pequenos coletores, que reúnem material de demolições, estamparias, autopeças e refugo industrial. Esse material passa por sucateiros de médio porte, que fazem a triagem, compactação e classificação por tipo de sucata antes de vender às usinas. As mini-mills, as usinas semi-integradas que operam com forno elétrico, são as principais compradoras. No Brasil, a Gerdau é o maior operador dessa rota, com diversas plantas semi-integradas em Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. A sucata pesada de aço era cotada em torno de R$ 1.200 a R$ 1.400 por tonelada no mercado doméstico no início de 2025, com variação por região e qualidade do material.

O gargalo estrutural do mercado brasileiro de sucata é o volume disponível. O Brasil ainda não tem a densidade industrial e o parque edificado envelhecido o suficiente para gerar a quantidade de sucata que países como os Estados Unidos e Alemanha produzem. A escassez de sucata de qualidade é apontada pela Abimetal-Sicetel como um dos limitadores do crescimento das mini-mills nacionais. O mercado importa sucata quando o spread de preço compensa, mas a logística encarece o produto e reduz a vantagem de custo. Isso cria uma tensão: a demanda por aço de baixo carbono cresce, mas a matéria-prima para produzi-lo ainda não acompanha no mesmo ritmo.

Para o distribuidor, a questão da origem do aço começa a impactar diretamente o portfólio. O aço produzido via rota elétrica com sucata carrega uma pegada de carbono documentada e rastreável desde a usina. Quando o cliente exige essa informação, o distribuidor precisa obtê-la do fabricante e repassá-la com o produto. Quem compra de usinas integradas e não tem esse dado não consegue atender o cliente que faz auditoria de cadeia. É uma mudança que parece burocrática, mas tem consequência comercial real: perda de contrato com compradores que já incluíram critérios de carbono no processo de qualificação de fornecedor.

O horizonte de longo prazo aponta para uma participação crescente da rota elétrica na produção mundial de aço. Estudo do BCG projetou que em 2050 cerca de 38% do aço produzido no mundo terá sucata como matéria-prima, ante os atuais 30%. À medida que o parque edificado envelhecer e a geração de sucata aumentar globalmente, o preço relativo da rota elétrica deve cair e sua vantagem ambiental deve ser cada vez mais precificada pelo mercado de capitais e pelos compradores industriais. O Brasil, que tem energia elétrica em abundância e um parque siderúrgico com capacidade instalada em fornos elétricos, está bem posicionado para esse movimento, desde que resolva o problema do volume de sucata disponível.

A Latam Wire + Steel 2026, que ocorre de 10 a 12 agosto no Expo Center Norte, vai reunir num mesmo espaço os fabricantes que operam pelas duas rotas, os distribuidores que precisam responder ao cliente sobre origem e carbono, e os compradores industriais que já definiram suas metas de descarbonização. É onde esse debate sobre sucata, forno elétrico e rastreabilidade de emissões passa do campo da teoria para o da negociação concreta. Para inscrições gratuitas e mais informações sobre a feira, acesse: wiresteel.com.br

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