Setor de vergalhões, telas e arames enfrenta pressão produtiva e maior concorrência com importados
Vergalhões em fundações de viadutos, telas metálicas em lajes de conjuntos habitacionais, arames de amarração em estruturas de pontes, perfis em galpões industriais — a cadeia produtiva de aços longos está na base física de praticamente tudo que se ergue no país. E neste momento, essa cadeia opera sob pressão alta em dois sentidos: de um lado, uma demanda interna aquecida por construção civil e infraestrutura; de outro, um volume crescente de importações que coloca em xeque a competitividade da indústria nacional.
O Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) prevê R$ 1,8 trilhão em investimentos totais, dos quais R$ 1,3 trilhão estão programados para serem aplicados até o final de 2026, segundo o Governo Federal. O Plano Plurianual 2024-2027 destina mais de R$ 60 bilhões especificamente para infraestrutura de transportes no ciclo atual. Só em 2025, o orçamento do Novo PAC foi de R$ 49,7 bilhões — montante que subiu para R$ 52,9 bilhões em 2026, alta de 6,4%. Em paralelo, o setor imobiliário registrou em 2024 um crescimento de 18,6% no número de lançamentos habitacionais, totalizando 383,5 mil novas unidades, metade delas vinculadas ao Minha Casa Minha Vida, cujos lançamentos subiram 44% em um ano, conforme dados da ADEMI-RJ.
Toda essa atividade consome aço longo. O consumo interno de vergalhões alcançou 2,75 milhões de toneladas nos primeiros nove meses de 2024, segundo levantamento da Construliga. O consumo aparente total de aço no Brasil chegou a 20,4 milhões de toneladas até o terceiro trimestre de 2025, de acordo com o Instituto Aço Brasil. A estimativa da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) é de crescimento real de 11% nos investimentos em infraestrutura em 2025.
Essa rigidez técnica explica por que, mesmo com a pressão do produto importado, os aços longos mantiveram participação relevante no consumo doméstico. Segundo a Construliga, a participação do aço estrangeiro na construção civil ainda é limitada, justamente porque esses produtos atendem a exigências técnicas e normativas específicas que reduzem a competição direta com importados. Enquanto nos produtos planos a China avançou fortemente em 2025, nos longos o volume importado recuou 1,4% no acumulado até o terceiro trimestre do ano, conforme o Instituto Aço Brasil.
O arame de amarração, o fio-máquina e as telas soldadas completam esse ecossistema. São produtos derivados do processo de trefilação — a transformação de fio-máquina em produtos de maior valor agregado — e estão presentes em praticamente todas as obras de estrutura. A demanda por esses itens acompanha o ritmo da construção civil: sobe quando as obras avançam, cai quando o crédito aperta. Em 2024 e 2025, o ciclo foi de alta.
O ambiente favorável na ponta da demanda convive com um problema estrutural na cadeia: o volume de aço importado subiu de forma expressiva nos últimos anos. Em 2025, as importações brasileiras de laminados cresceram 20,5%, alcançando 5,7 milhões de toneladas — 63,7% deste volume com origem na China, segundo dados do Instituto Aço Brasil. No segmento de produtos processados, que inclui arames, cabos, perfis e tiras, a Abimetal-Sicetel registrou 821,2 mil toneladas importadas em 2025, alta de 16,1% frente a 2024 e quase o dobro do volume de 2019.
A resposta do governo veio por medidas de defesa comercial. Em 2024, o Brasil elevou temporariamente a tarifa de importação para 25% em uma série de produtos siderúrgicos. No início de 2026, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou tarifas antidumping definitivas, com validade de até cinco anos, para categorias específicas originárias principalmente da China. Segundo a Abimetal-Sicetel, o crescimento das importações se concentrou justamente nos segmentos mais sensíveis a preço: arames de aço, cabos, perfis, tiras e fitas — produtos com alta penetração no consumo interno e nos quais a diferença de preço do importado tem efeito direto sobre a competitividade do fabricante nacional.
O problema é que, para a indústria processadora, as medidas antidumping têm alcance limitado. O aço também entra no país já processado, embutido em peças, máquinas e equipamentos importados. É o que o setor chama de “aço contido” — o metal que cruza a fronteira acoplado a um produto final, sem ser classificado como matéria-prima. A barreira sobre o vergalhão bruto não alcança o parafuso dentro de uma máquina comprada da China.
Ao longo de 2025, o preço médio do quilo do aço no Brasil acumulou deflação de 9,57% até janeiro de 2026, segundo dados do Sienge. Mas o movimento recente inverteu a direção: entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, o índice subiu 3,56%. Em março de 2026, o vergalhão CA-50 de 3/8 polegadas era cotado, em média, a R$ 57,90 a unidade em Santa Catarina. Nos aços longos usados na construção civil, a tarifa de importação ficou em 15,8% em 2025, conforme levantamento da InvestNews.
A produção nacional de aço bruto recuou 1,6% em 2025, fechando em 33,3 milhões de toneladas, enquanto as vendas internas ficaram praticamente estáveis em 21,2 milhões de toneladas. É um retrato que resume bem a contradição do setor: a demanda pela construção civil cresce, mas a produção doméstica encolhe. A diferença é coberta pelo importado. Esse fluxo pressionou o setor ao longo de todo o ano e é o pano de fundo das disputas comerciais que devem continuar em 2026.
Para o mercado de aços longos, o horizonte de curto prazo depende de quantas das 269 obras previstas pelo Novo PAC saem efetivamente do papel. O Tribunal de Contas da União identificou que aproximadamente 47,6% das obras financiadas por recursos federais estão paralisadas, o que sinaliza um ciclo de liberação que pode aumentar a demanda de forma concentrada quando os projetos voltarem a andar. Para as empresas da cadeia de arames, telas e vergalhões, o cenário é de oportunidade real, desde que a competitividade frente ao produto importado seja sustentada.
É nesse ambiente de pressão sobre margens, reconfiguração de fluxos comerciais e aumento da concorrência que a feira Latam Wire + Steel se posiciona como ponto de encontro estratégico para a cadeia dos aços longos. O evento, que ocorrerá de 10 a 12 de agosto no Expo Center Norte em São Paulo (SP), reunirá fabricantes, distribuidores, fornecedores de tecnologia e serviços industriais em um ambiente voltado à exposição de soluções e geração de negócios. As inscrições já estão abertas para profissionais do setor em: wiresteel.com.br.