Material reciclável sem perda de propriedades mecânicas, o aço reduziu em até 80% o consumo energético de algumas usinas ao substituir o minério de ferro pela sucata como principal insumo
O Brasil fechou 2024 com consumo aparente de 26,1 milhões de toneladas de aço, o maior volume registrado em anos recentes, segundo dados do Instituto Aço Brasil. O desempenho acompanha o crescimento de 3,4% da economia no período e está concentrado em três setores: construção civil, que absorveu 37,3% do total; automotivo, com 24,8%; e bens de capital, com 19,2%. São números que mostram o material presente nas duas pontas da economia, tanto na infraestrutura quanto na produção de bens.
O que torna o aço diferente de outros insumos industriais é uma característica que poucas matérias-primas têm: ele pode ser reciclado indefinidamente sem perder desempenho mecânico. Cada tonelada reaproveitada evita o consumo de aproximadamente 1.400 kg de minério de ferro, 740 kg de carvão e 120 kg de calcário. O impacto na cadeia produtiva é direto, tanto nos custos quanto na dependência de matérias-primas primárias.
Esse modelo ganhou escala com o forno elétrico a arco, tecnologia que usa sucata como principal insumo e consome até 80% menos energia do que a rota tradicional baseada em minério. O avanço nos processos de qualificação da sucata ampliou o aproveitamento do material, tornando o ciclo mais eficiente e criando um mercado próprio de coleta, processamento e reinserção industrial.
Para Valdomiro Roman, diretor de operações da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), a reciclabilidade não é apenas um atributo ambiental. “A possibilidade de reaproveitamento contínuo, sem perda de desempenho, contribui diretamente para a eficiência dos processos produtivos”, afirma. Segundo ele, os dados de demanda recente confirmam esse papel. “Os números mostram uma demanda consistente, puxada por setores estruturais da economia. Isso evidencia como o aço permanece essencial para atender diferentes segmentos com escala, qualidade e competitividade.”
O volume de aço reciclado no mundo chega a centenas de milhões de toneladas por ano. No Brasil, a combinação de demanda aquecida com o ciclo de reaproveitamento cria uma dinâmica que reduz a volatilidade de custos para as usinas, já que a sucata funciona como insumo com razoável previsibilidade de oferta, especialmente em regiões com indústria consolidada.
A construção civil, maior consumidora nacional, puxa esse ciclo de forma contínua. Estruturas metálicas ao fim da vida útil voltam à cadeia como matéria-prima para novos produtos, sejam perfis estruturais, chapas ou vergalhões. O mesmo acontece com o setor automotivo, onde a taxa de recuperação de aço em veículos descartados é historicamente alta. A circularidade, nesse caso, não é conceito, é prática industrial estabelecida.
O avanço do consumo em 2024 não significa que o setor está sem pressões. A competitividade das importações, especialmente asiáticas, segue como preocupação das entidades do setor. Ainda assim, o dado de 26,1 milhões de toneladas consumidas internamente indica que a demanda real está lá, ancorada em cadeias que não prescindem do metal.
Esses números e tendências estarão em pauta na Latam Wire + Steel 2026, de 10 a 12 de agosto no Expo Center Norte, em São Paulo. O evento reunirá fabricantes, distribuidores e compradores da cadeia de aço e derivados metálicos, e deve refletir exatamente esse cenário: demanda interna aquecida, pressão competitiva das importações e um debate crescente sobre eficiência produtiva e circularidade. Inscrições gratuitas para profissionais e mais informações em: wiresteel.com.br